• Rafael Brasileiro

Obrigado, Don Shula!

O único técnico campeão invicto foi muito maior do que você imagina

Don Shula tem recordes da NFL que dificilmente serão quebrados

Quando você começa a aprender sobre futebol americano e pesquisa sobre o esporte, aprende que Don Shula é sinônimo de duas coisas. Miami Dolphins e recordes. Alguns que parecem ser impossíveis de serem quebrados. Ser campeão invicto na NFL talvez seja o maior deles. Porém, resumir ele a um título invicto é pouco. Don Shula é o maior técnico da história e precisamos falar mais dele.


O técnico, que faleceu na última segunda-feira, é mencionado quando se fala do time dos Dolphins de 1972, o único campeão invicto da história. Rick Ross e Pitbull já encaixaram as palavras invicto e Shula nas suas músicas. Virou sinônimo. Além disso, ele é o técnico mais vitorioso da liga com 347 vitórias no currículo. Este último dado, geralmente aparece quando falam dos recordes de Bill Belichick e como o técnico dos Patriots pode superá-lo em breve. Um feito que seria uma honra, já que o head coach com mais Super Bowls na carreira é fã de Shula desde a época dos Colts.

A carreira de Don Shula começou cedo na NFL. Dentro do campo e aos 21 anos. Após sete anos como defensive back dos Browns, Colts e Redskins, Shula se aposentou do futebol americano Bem cedo, por sinal. Com 27 anos, Don apenas pendurava as chuteiras e mudava de função na NFL. Poucos meses depois de sair da liga, Don estava trabalhando como técnico e teve passagens pelas universidades de Virginia e Kentucky. Retornou a NFL através do Detroit Lions. Em todos esses times ele foi contratado como técnico da secundária. Em 1963, Shula aproveitou o relacionamento com Carroll Rosenbloom, dono dos Colts, e o convenceu a assumir o comando do time. A franquia havia sido campeã em 1958 e 1959 e buscava ter o brilho desses anos. Eles tinham Johnny Unitas, o melhor quarterback da época, e esse talento tinha que ser aproveitado. Em duas temporadas, Shula colocou o time de volta a final, que em 1964 ainda não era o Super Bowl. Derrota por 27 a 0 para os Browns. Uma ironia do destino para o técnico que havia perdido uma final pelos Browns no seu primeiro ano como jogador.

Além dos Dolphins, Shula só treinou os Colts e disse que teria ficado o resto da carreira se tivesse sido campeão

A redenção para Shula e para os Colts tinha data e lugar. O Orange Bowl, que seria sua futura casa em alguns anos, viu a maior zebra da história do Super Bowl. Os Colts só haviam perdido uma partida e mesmo sem o lesionado Johnny Unitas, chegou ao grande jogo como favorito. O que eles não contavam é que as palavras de Joe Namath, que garantiu a vitória antes da partida, se tornariam reais. Unitas ainda tentou salvar o destino do troféu Lombardi após um desastroso início de Earl Morrall, mas era tarde. A derrota por 16 a 7 mudou a carreira de Shula. O ano seguinte foi mais decepcionante ainda e a paciência Carroll Rosenbloom acabou quando o técnico pediu um aumento que foi automaticamente negado.

A negativa fez Shula conversar com Joe Robbie, dono dos Dolphins, e assinar um contrato melhor no sul da Flórida. O movimento foi denunciado pelos Colts e a NFL puniu o time de Miami entregando a primeira escolha do draft de 1971 dos Dolphins para os Colts. O castigo de perder a escolha deve ter doído bem menos do que ver o seu ex-time ser campeão assim que ele saiu. Os Colts voltaram ao Super Bowl V e bateram os Cowboys por 16 a 13. Shula não teve tempo para se preocupar com aquele detalhe. Apesar de ter ido aos playoffs de 1970 e perder para os Raiders, o time dos Dolphins era muito promissor. A dupla de running backs Larry Csonka e Jim Kiick comandava o ataque que tinha Bob Griese como quarterback. Em 1971, Shula mostrou que sabia como conduzir um time e levou os Dolphins ao Super Bowl. Atropelou os Colts na final da conferência e parecia pronto para apagar todos os fantasmas


O seu segundo Super Bowl como técnico também foi sua segunda derrota em uma partida que serviu de redenção para os Cowboys, time que havia sido derrotado no ano anterior. Csonka e Kiick sofreram contra a defesa de Tom Landry e os Dolphins tiveram três turnovers, um deles de Larry Csonka, que não havia cedido nenhum fumble na temporada e entregou a bola quando não podia.


Tantas decepções só fortaleceram Shula e 1972 foi um ano surpreendente por vários motivos. Para começar, os Dolphins perderam o quarterback Bob Griese na semana 5. A ironia é que quem o substituiu foi Earl Morrall, que foi titular no primeiro Super Bowl de Shula quando treinava os Colts. Na primeira partida de Morrall, que tinha 38 anos na época, como titular, a invencibilidade quase foi pelo ralo. Mas o jogo corrido manteve os Dolphins na frente do placar e dali por diante nada os pararia.

Nos oito jogos restantes, os Dolphins não sofreram pontos em três jogos (Colts duas vezes e Patriots) e até a final da Conferência não havia adversário à altura. Até terem que enfrentar os Steelers. Morrall não estava bem e Shula já tinha assistido esse filme no Super Bowl III. Bob Griese estava recuperado e o técnico colocou o antigo titular em campo. A decisão deu certo e Griese foi titular também no Super Bowl VII. A vitória por 14 a 7 lavou a alma de Shula e colocou seu nome de vez na galeria dos grandes técnicos. Mal sabia que conseguiria algo que ninguém repetiria até a sua morte. Único campeão invicto.


O recorde perdura até hoje e a estrada que Shula percorreu o levou a outras glórias. O bicampeonato veio em 1973, com vitória sobre o os Vikings no Super Bowl VIII por 24 a 7. 11 anos de carreira como head coach, quatro Super Bowls e dois Lombardis poderiam ser o bastante. Mas ele sempre desejou mais. Shula soube se adaptar ao tempo. Saiu de um plano de jogo com foco nas corridas após os Super Bowls para o início de um jogo mais aéreo no fim da década de 70. Voltou a abraçar as corridas no início de 80, mas soube se adaptar novamente quando selecionou Dan Marino em 1983. Isso se reflete nas 33 temporada como treinador e apenas duas temporadas com menos de 50% de aproveitamento.

Dan Marino foi draftado por Don Shula e ajudou a mudar o estilo de jogo dos Dolphins

Foram seis decisões em três décadas diferentes. Uma longevidade que criou recordes e também o tempo para ser questionado. Sua saída dos Dolphins era vista como necessária para tentar aproveitar o fim da carreira de Marino. Os Dolphins até andaram de mãos dadas com boas temporadas por alguns anos, mas neste século é mais lembrado por decepções, pelo filme Ace Ventura e ser uma piada. Um contraste com os dias de glória que teve com Shula.


Mais sobre Shula? Existem livros e mais livros sobre o técnico e sobre aquele time dos Dolphins. O mais famoso é o de Carlo DeVito (sem tradução em português). Se livro não for a sua preferência, a NFL Network já falou muito sobre o técnico e existe um Football Life sobre o técnico que você pode achar no NFL Game Pass ou no youtube.

Shula também aparece nos America’s Game dos títulos dos Dolphins de 1972 e 1973. Todos são mergulhos profundos em um gênio do futebol americano e que conquistou seus jogadores. Uma da passagens mais engraçadas desses documentários é quando o técnico conta que em um jogo fora de casa ele arruma um modo de descobrir quais jogadores sairam do hotel na véspera de um jogo. Shula pede ao operador do elevador para que todo jogador que sair após às 22h do hotel ele peça um autógrafo em uma bola. No dia seguinte, Shula entrou na reunião da equipe com a bola na mão e todos que haviam quebrado o toque de recolher sabiam que o técnico havia descoberto.

Em 2020, quando o último time invicto perder na NFL, o tradicional champanhe para o time de 1972 dos Dolphins será menos alegre. Na verdade, será dolorido. Será um brinde também a um técnico que foi fundamental para transformar a liga no que ela é hoje. Um brinde ao maior técnico da NFL.



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